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SÓ CRÔNICAS

A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal, o que já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições"

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Roseane Comentário de Roseane em 23 março 2009 às 3:49
Um Brasil fora do Brasil

Nasci Amazônida do que tenho orgulho, maior bacia Hidrográfica do Planeta, maior e mais rica floresta viva, maior biodiversidade, mínimos índices de fenômenos catastrófico-climáticos, oriundos de relevo. Manancial de vida, belezas naturais e um grande, imenso abismo que nos separa e difere do resto do país. Vejamos algumas peculiaridades: As dimensões geográficas e a própria geografia do meu estado permite que deslocamentos entre municípios possam ser até de dias, atravessando infindáveis rios. Alguns deslocamentos por terra podem suplantar em muito distâncias entre países da Europa. O preço, por exemplo, de alguns trechos de viagens aéreas pode custar quase o preço de uma viagem internacional.
Apoio este texto nestas informações para chegar à outra risível diferença: A Amazônia o Norte, a parte os interesses por suas riquezas naturais, por suas terras ditas “improdutivas”, é uma região deslocada do Brasil. Parece um segundo país, outro solitário e deslocado Brasil.
Um Brasil de imensas distorções sociais e culturais, com culturas tradicionais e complexas, onde negativos fatos se destacam na Imprensa nacional e mundial: Caos na saúde, alto índice de Incesto e Pedofilia, assassinatos de Líderes das lutas pela terra, e muita violência urbana, escolar e familiar, feridas abertas que nos envergonham.
No que se refere ao distanciamento, sofremos com um arrastado, paralisado avanço tecnológico, atraso, descompasso com as evoluções que sabemos comum em outras regiões do país.
Em se tratando de tecnologia da Informação, o que nos tiraria do analfabetismo, Exclusão Digital, amargamos o aprisionamento a uma única empresa que detém
na manga a carta da famosa “Banda Larga” e por isso pratica preços elevados, oferecendo péssimo atendimento nos vinculando a ela por mera falta de opções. Carecemos de empresas concorrentes, cuja ausência por aqui busco explicações convincentes, se no país há um sem número de prestadores do serviço, variedade de preços, dinâmica na concorrência.
Para reduzir o “stress” de uma internet móvel lenta que possuía, decidi contratar um Plano que entre outros serviços me oferecia a tal “velocidade” na conexão. Comecei ai uma “Via Crucis” das mais estressantes, a começar por adquirir tal produto via serviço de televendas onde sucederam um rol de não esclarecimentos, agendamento de visitas não registradas, muitas, inúmeras ligações para os insólitos “tele- atendimentos”, sequências de aborrecimentos, horas ao telefone, desencontro de informações, transtornos, desatenção e desrespeito para com o cliente cidadão que só quer, unicamente ter acesso a um produto, algumas reclamações a Anatel por telefone e via Internet e finalmente um atendimento depois de ter contratado os serviços em 01/03/09 e efetiva instalação dando-se somente em 20/03/09.
Em andamento outras questões na mesma Empresa, do mesmo Plano, desta feita para solucionar pendência referente ao telefone móvel. Depois de outra “peregrinação” ao telefone, busquei uma loja, onde bem atendida, encaminhadas finalmente soluções, em conversa com a provedora ouvi da mesma: - Tudo isso poderia ter sido evitado se a senhora tivesse vindo a Loja adquirir o produto.
Então me pergunto: E se o cliente está hospitalizado, porta grave deficiência que o impede o deslocamento?
E se reside em um município distante (como costuma ser por aqui) e a Loja mais próxima é a um dia de distância ou mais?
E para que servem os serviços de Tele-atendimentos, televendas se não para a priori “facilitar” a nossa vida?
É inaceitável, é cômico sem deixar de ser sofrível. É desalentador.
O desamparo, a angústia que me acompanhou até a Loja onde as coisas parecem estar se resolvendo é uma situação a parte, daria um segundo capítulo desta “Saga” a caça de um pouco de eficiência, conforto tecnológico em pleno Século 21 em contra ponto ou versus a insuficiência de qualidade nos ditos “call services” versus a precariedade dos serviços a carência infinita de ofertas na região Norte. Bela trilogia.

Onde estão os investidores?O mercado está descoberto.
Temos potencial.
Não somos a melhor renda do país, mas é sabido que a concorrência propicia preços mais justos, acessíveis.
Nortistas querem, pretendem pertencer ao mundo digital.
O mundo mudou. Nossos rios, nossos povos tradicionais das florestas e indígenas carecem dessa evolução.
Índio não quer mais apito. Índio quer Internet Veloz. E porque não?
Ah, só para registrar, somos (Norte) o começo do Brasil!
Jorge Cortás Sader Filho Comentário de Jorge Cortás Sader Filho em 13 março 2009 às 0:26
Sem susto

O homem que caminhava solitário nos arredores da Praça Mauá, onde fora tomar uns chopes, havia trabalhado muito naquele dia.
Oficial intermediário da Marinha de Guerra, era comandante de uma lancha de patrulha da costa brasileira. Passara a tarde estudando o litoral da Restinga da Marambaia, onde suspeitava haver um grande despejo de tóxicos, jogados pelos navios. Ecstasy, a droga que mata por overdose.
Era um excelente oficial, mas sem dúvida um tipo um pouco estranho. Casado, pai de duas filhas, sempre teve um grande respeito pela família, onde era a docilidade em pessoa.
Não era assim no trabalho nem na sua conduta. Os seus comandados sabiam bem que não deveriam ser relapsos nas tarefas. Qualquer ajuda que precisavam, era só falar com o comandante. Não emprestava dinheiro porque não faz parte da vida militar, e tinha família, ganhava o suficiente. De resto, uma palavra sua ajudava muita gente. Ser trabalhador e honesto acima de qualquer suspeita garantiam este privilégio.
Os oficiais da Marinha usam hoje pistolas nove milímetros, geralmente Browning. Catorze tiros no carregador. Nem é preciso usar o segundo pente, é muito cartucho. O comandante também usava sempre uma pistola nove milímetros. Mas era a histórica Walher P.38, a famosa arma que os alemães colocaram para substituir a Luger. Esta era também uma excelente arma, mas qualquer carga deficiente, por menor que fosse, fazia a arma não funcionar, tamanho era o seu esmero na fabricação.
Este fato não acontecia com a P.38. De precisão no tiro impecável, aceitava e aceita munição bem ou mal feita. O comandante usava o stand de tiro da sua unidade. Como abusava na quantidade de disparos, usava uma pistola de pressão. Era raro fazer pontaria. Apontava a arma e os pontos mortais da silhueta eram acertados com facilidade.
Rua praticamente deserta, os automóveis preferem não passar em frente ao Primeiro Distrito Naval, durante a noite.
O comandante percebeu a manobra de dois tipos suspeitos, e continuou andando tranquilamente, mas sua mão já estava no cabo da P.38.
A polícia não se incomoda muito quando topa com cadáveres de marginais conhecidos. Dois tiros no peito de cada um.
O oficial, embora tenha sofrido por ser obrigado a tomar esta decisão, pensou que era bem melhor do que deixar esposa e duas filhas sem ele.
Myriam Peres Comentário de Myriam Peres em 16 fevereiro 2009 às 13:37
Emoções

Solidão




Solidão...



Incrível é a solidão
É o abismo, a falta de chão
Que nem quer saber a razão
E, chegando na encruzilhada
Como se fosse a estrada
Do tudo e do quase nada...

É a ausência sentida
Que envolve minha vida
A falta da tua presença
Ao escancarar do passado
Passa tudo, não passa nada
Se passa é tudo apagado...

E, nas asas do só passar
Passando a rasteira no chão
Passa o passado, a escuridão
Restando só a solidão
Finda tudo que é ilusão
Acorrentando meu coração...

Nos meandros do escurecer
A solidão só passa pra ver
Se tudo que já passou
Se aquilo que talvez restou
Passou tudo sem faltar nada
Deixando a dor e o fim da estrada...

Solidão é o deboche da esperança
O esgar de uma só lembrança
Que me faz endoidecer
É a cantiga da partida
É a canção da despedida
Que arrasa o meu sofrer...

Escárnio da ilusão
Do vendaval de paixão
Que habita meu coração
Agora só resta a saudade
Do amor, da realidade
Da pureza, da emoção...

De repente ficamos sozinhas
Conosco mesmo, isoladas
Ficamos com a alma partida
Não por causa da despedida
Ficamos com os desenganos
Da vida triste sofrida...

Myriam Peres



Como dói a solidão! É um arrancar perene das nossas emoções, dos nossos castelos, dos nossos corações. É como tentar driblar as saudades, os aconchegos que outrora nos animavam e abraçavam. É é a constância daquela pedra ferina que corta nossa imaginação, que despedaça os ricos anseios da vida que nos encantava, catapultando todas os sonhares, todas as esperanças, todos nossos amares.
Solidão é o perfume já diluido das nossas recordações, empurrando-nos para o vácuo das incertezas e dos queixumes, pois somos nada em comparação com o mundo que já nos amparou e que conhecemos e do qual fazíamos parte. Ao nos situarmos nesse mesmo mundo, vemos e não vemos mais nada, nem vida mais, nem mesmo o fim de estrada.
Sentirmos solidão é como não termos sombra, alma e sentimento, porque estamos a sós conosco mesmo, alheios à vida que nos cerca e às pessoas que existem ao nosso redor. Muitas vezes sentimos solidão cercados de vida e de multidão, mas conosco mesmo existe o vazio, o abismo que nos leva à condição de pedintes de ajuda e de socorro.
Imploramos que haja um oásis, mesmo o mais singelo de todos, que possa nos fornecer a água que nos sacie a sede de uma companhia, de um braço amigo que nos abrace, de uns lábios que saibam sussurrar frases de estímulo, de chão para nossos pesadelos, de ânimo para nossos desassossegos.
E, nos sem-rumo de nossas embarcações, sentimo-nos sozinhos, na imensidão de nossos medos, no vazio da solidão dos nossos desatinos, na pequenez de nossas esperanças, então vêm as saudades de tudo, do nada e das nossas imaginações férteis que, febrilmente, buscamos para não estarmos assim tão soltos, tão nús de alma e de coração.
Solidão é um estado de sermos sós, de estarmos à deriva da vida, das pessoas, dos acontecimentos, dos prazeres do amor, da vida que nos envolve, ancorados na tristeza, no abismo, no vácuo de nossas lembranças e vivências. A vontade é de voltarmos céleres ao passado e revivermos o que nos tiraram e que nos isolaram, restando só saudades e as lembranças que ficaram.
Solidão é uma viagem, sem bagagem, sem destino, sem janelas de esperas. Todos nós, às vezes, nos sentimos sozinhos, isolados do mundo, da vida, dos roteiros do saber se achar, se conhecer, do saber viver. Somos árvores de múltiplos galhos, dos emaranhados, trançados ramos de itinerários díspares, de folhas desencontradas, flores pra todos os lados, mas na consciência de sermos humanos, apesar dos plantares das nossas raízes nos fincarem nos chãos da vida que nos foi dada viver.
Na vida humana que conhecemos, temos que nos ajudar a viver com tudo que aparecer, pois não é nos fechando, nos isolando, que vamos nos salvar. Devemos, sim, sermos âncoras do nosso sobreviver sem sofrer. mas não devemos ignorar que a solidão exista. Ela existe mesmo e temos plena consciência disso. Temos é que pedir ao Altíssimo que nos dê forças, exemplos que possamos seguir sem nos dilacerarmos tanto, em tanto sofrimento.
Nas pedras que estamos a tropeçar, vemos chegar caminhos para nossas esperanças, para nossas tão esperadas janelas, de esperas ansiosas e benéficas...
Que Deus nos ajude a driblar a solidão, dando-nos ânsias de futuras companhias, de tudo que possa nos colocar, de novo, com os pés no chão, esperançosos de vida melhor, que realmente merecemos...

Maria Myriam Freire Peres
Rio de Janeiro, 11 de junho de 2005
Myriam Peres Comentário de Myriam Peres em 31 janeiro 2009 às 2:47
Palavras ditas, soltas
Conversas sem compromisso
Vidas vagando contando
Memórias ressuscitando."..
Myriam Peres


Como é gostoso jogar conversa fora! Ficar horas a fio, relembrando fatos, revivendo emoções sem saber o que dizer, mas dizendo, contando, cantando histórias ultrapassadas... Ficar como desfiando rosários de passados, de fatos tão bem contados que mais parecem filmes de televisão. Memórias excitadas com todas essas histórias, verdadeiras ou ficção?

Aconchegada aos braços da saudade, vivo essa emoção. Acentuo as cores das nuvens largadas pra trás, poeiras deixo-as assentadas no chão das recordações. Pingam folhas já amassadas, pétalas de flores esmaecidas, galhos de outroras ressequidos, mas são vindos de mundos distantes, mundos que já foram antes e que se reerguem do chão das lembranças, das melancolias que me atordoam ainda a razão.

A quem for que relembremos, a quem nos queira escutar nossas conversas fiadas, tão perpetuadas, tão passadas, tão agora requentadas, tão cansadas de serem rememoradas. Jogar conversa fora sem preocupação de palavras bonitas, de rimas de badalação, de cânticos de uma canção, somente deixar cair ao vento recordações que emolduram corações.

Ah! Deixem eu contar mais umas, mais verdades de sonhos soprados e acalentados, mais rimas das poesias que me recostam em profundas melancolias, dos reencontros das distâncias, dos ares já ventilados, das fragrâncias tão perfumadas que minha memória, sonhadora e emocionada, me derruba em transes dos passados, das notas que ainda ecoam com tanto sentido que me estremece ainda de tanta solidão...

Desacorrentemo-nos de nossas regras, tiremos as mordaças que oprimem, soltemos fôlegos de liberdade mesmo se só forem em conversas fiadas, de palavras desajeitadas, de suspiros entrecortados, conversemos com a vida, mesmo se ela for mal resolvida, mas deixemos em frases mal feitas ela se pronunciar. Quem sabe se ela vai gostar e contar as passadas dadas. os erros acobertados, as ilusões desmioladas e em fraquezas despedaçadas.

Mas ela dirá também das alegrias deixadas, das nossas gargalhadas, dos prazeres escondidos, dos comportamentos de bandidos que um dia ousamos empunhar. Conversemos com ela, amansemos seu coração que está cansado de tanto sofrer, de tanto nos proteger, de tanto nos avisar dos tropeços que ainda vamos dar, de tanto ser escravizada às custas de nossos "bem querer" tão difíceis de se conseguir e de nas nossas emoções reter...

Conversas à toa, palavras que sairão borbulhantes das nuances de historias passadas, de cânticos tão mal contados, rotos e esfarrapados que enrodilharam-se nas nossas memórias, de fustigantes derrotas e vitórias, de risos e lágrimas a gotejarem dos nossos olhos de idos já sumidos da nossa visão.

Contem fatos, embaralhem paraísos, de choros e de risos, de saudades e de alívios, mas não deixem arrefecer as despedidas, as chegadas e saídas, as voltas adormecidas, os nossos liames de vidas que são só nossos assim enrustidos, embrutecidos e de enfraquecidas visões de vidas vividas umas e coloridas outras, em diapasão de cores, de amores, de sonhos sofredores, mas conversemos. Contemos a quem interessar possa, a quem nos quiser escutar, a quem curioso se apresentar e chegar para emergirmos, nas palavras, nos ocasos das revelações vigentes, as afoitas e desnudas saudades...

Recostem-se conversando, que lírios de sonhos acordando nas flores de seus paraísos, nos infinitos de seus sorrisos, que fazem a gente crer que nada se acaba, apenas se transforma em vidas renovadas, rosas sem suas picadas de espinhos que foram assim criadas, mas que em seus odores e cores presenteiam como rainhas das pétalas macias, dizendo que atrás de suas picadas, vêm vidas tão airosas colorindo nossas estradas, transformando em tudo o que antes era nada...

É a vez da vida chegando, convidando à renovações, à perfumadas ilusões, ninando em seu colo fértil e florido, de tão lindo colorido que embalam em nossas visões, rimando poesias, enfeitiçando as promessas de cânticos cantados à beça.

Vamos experimentar novas histórias, vamos viver novas glórias, vamos compor de novo, em papos retirados do passado, torná-los assim tão vivos como se assim se apresentassem em nossas fiadas conversas, motivos de recordações...

Vamos jogar conversa fora, vamos em passadas de agora, tornarmo-nos magias de tanto viver a vez da vida, de tanto poder contar futuros que se apresentarão e enriquecerão nossos infinitos com os de ares do Éden celestial...

Maria Myriam Freire Peres
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2006
Jorge Cortás Sader Filho Comentário de Jorge Cortás Sader Filho em 17 janeiro 2009 às 12:29
Conservatória


Acompanho um passeio que vai visitar, de sexta-feira a domingo, fazendas do tempo imperial em Conservatória, pequena cidade de quatro ruas, situada no norte fluminense.
Conservatória, como cidade, é pequena, mas sua área é bastante grande, quando envolve centenárias fazendas que produziam café nos tempos imperiais.
Sinto-me deslumbrado; a palavra não pode ser outra. As fazendas estão impecavelmente conservadas e restauradas, e ando no tempo. Vejo uma mesa de oito metros feita por uma só tábua de madeira nobre. Os donos, um simpático casal já idoso, encarregam-se de fazer as apresentações do lugar. Na mesa de oito metros já se sentaram o Conde D’Eu e a Princesa Isabel. A sede tem setenta e oito janelas, e penso imediatamente quem limpa aquilo tudo agora. Quando produzia café, eram os escravos, hoje possivelmente é alguma firma especializada, pois esta é apenas uma das fazendas do lugar. Os donos silenciam e não comentam nada sobre o assunto.
Conheço outras fazendas, não imponentes como esta, mas que nada devem em matéria de conforto. Em todas é servido um lanche. Bolos e queijos deliciosos, e champanhe modesta: Veuve Clicquot, na temperatura certa, certíssima, taça de cristal antigo, leve e para a minha satisfação, a quantidade é farta, podendo repetir.
Se insistir com a descrição das fazendas, acabo fazendo uma monografia.
Um bom passeio pela cidade vai mostrar bem o lugar onde estou. Ar puríssimo, nada de carros circulando nas ruas, jardins arborizados, ruas calçadas com pedras, trabalho invejável. A temperatura é de 20 graus centígrados. Em cada esquina, poucas, o nome de um compositor ou poeta. A tabuleta indicativa tem pauta pequena, onde estão escritas músicas famosas. A cadeia, vazia.
Vejo passarem homens de idade e alguns poucos jovens, que estão no Rio de Janeiro, estudando. Grande parte deles carrega o violão e um sorriso franco.
Acordes são ouvidos, pequenas cantorias, afinações dos instrumentos. Muitos estão sentados com um caderno à frente. Poetas. Como têm poetas aqui. Poetas e seresteiros. Continuamos andando e entramos numa loja. A especialidade é a venda de cerâmica muito bem feita, objetos de primeira qualidade. A maioria, feita em Conservatória mesmo. Um casal de idade, os donos da loja nos dão bom dia e continuam os dois com papel escrevendo. Ficamos livres para olhar as peças à vontade, sem o vendedor nos seguindo e perturbando. Escolhidas as peças, fomos no balcão pagar. Recebem sorridentes, agradecem e perguntam se vamos à seresta. Claro que vamos! Aproveito a parada e vejo se na minha mochila estão bem acondicionadas as duas garrafas de cachaça que comprei numa das fazendas, produção artesanal, envelhecida no tonel de carvalho que foi usado para fazer vinho tinto. Estão perfeitas, e não vou abrir nenhuma, até chegar em casa. Abrir para que, se em cada bar – parece que têm muitos – parece, somente. Entro num e como a hora do almoço estava próxima, peço uma especial. Não é tão boa como a que tomei e estou levando, mas de ruim não tem nada.
O almoço? Feijão cozido na panela de barro, fogo a lenha, com os complementos típicos: arroz, farofa pura ou com couve, farofa de todos os tipos, torresmo, lingüiça, carne seca, meu Deus, é comida demais. Vou devagar. Faço um prato pequeno. Qual! Repeti duas vezes! Como deixaria de fazer extravagância? Feijão não combina com vinho. Cerveja, que venha...
Depois de um sono de duas horas, banho e roupa limpa, mais elegante.
Fomos todos para a praça; o tempo estava bom e permitia que os violões, violas e flautas dessem início a serenata. Músicas que eu não ouvia há muito tempo eram cantadas num magnífico coro. Parava a musica e um poeta dizia seus versos.
Tudo terminou com “O luar do sertão” de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco. Eu pensei que não mais cantaria esta música com coro e acompanhamento. Fiz muitas subidas em montanhas, quando jovem, e nas mais fáceis, as que não têm escaladas, é comum uma espécie de fogo do conselho, onde escoteiros e bandeirantes rezam, recitam poesias e cantam alegremente. Sempre fui uma das vozes mais altas, tomado pelo entusiasmo. Repeti com muito prazer.
Conservatória... Breve eu volto.
Jorge Cortás Sader Filho Comentário de Jorge Cortás Sader Filho em 21 dezembro 2008 às 12:16
Amor incontido

Não sabemos como, o amor, este velho e companheiro do mais rude homem, costuma pregar peças.
A bela moça, cabelos dourados, olhos faiscantes, postura de princesa e graciosidade no corpo, fica apaixonada. Seu parceiro é mais velho. Talvez pudesse ser seu pai. Electra? Toda vez que um fato destes acontece precisa rótulos, principalmente freudianos? Acho que não.
O certo é que num sábado de maio, num corredor de hospital famoso, eles se encontraram por acaso. Ambos tinham o mesmo objetivo: visitar parentes internados. Para aumentar a coincidência, não eram pacientes em estado que inspirasse maiores cuidados. Crise alérgica, muito comum nesta época.
Quando se viram, um olhar procurou o outro. Um olhar encontrou o outro. Um olhar gostou muito do outro.
A bela, solteira. O homem, casado. Estes fatos são comuns. O homem costuma partir para a conquista, mas na verdade é ele quem está sendo conquistado. O jogo é este. A mulher escolhe o seu homem, mas nós não admitimos tal fato. Verdade que se não temos os predicados que ela exige na sua mente, somos descartados, como somos também se não soubermos aproveitar a ocasião.
Grandes mulheres costumam ser demasiadamente exigentes. Quando fazem suas escolhas, querem ser correspondidas. Ela era assim. No primeiro encontro, depois de um beijo que insinuava tanto amor, como sexo, veio a intimação: “você é só meu, não divido com ninguém”.
Nem perguntou se tinha filhos, ou amava a mulher. Apoderou-se de mim num instante, naquele pensamento “é meu e está acabado.”
A beleza dela é tanta que ficamos sem dizer palavra. Que, aliás, de nada valem neste momento.
Determinada e atrevida, ela joga pesado.
- Vamos para Caxambu amanhã. Onde pego você?
- Querida, isto não pode ser assim!
- Pode. Ou você vai ou perde!
Ele não foi. Amarga, até hoje, a perda de tão linda jovem, cabelos dourados, olhos penetrantes, uma mulher linda por fora e por dentro, como ele pode saber durante o curto período em que se falaram.
Agora fica a saudade. Saudade de quem não realizou um amor incontido...
Jorge Cortás Sader Filho Comentário de Jorge Cortás Sader Filho em 10 dezembro 2008 às 11:10
Uma mulher marcada

Tinha trinta e cinco anos. Morena, com boa estatura e peso, nem alta, nem baixa, nem magra, nem gorda. Olhando com mirar rápido, via-se que era uma bela mulher.
Bela por fora, feia por dentro. Não ligava a mínima para seus próximos: ignorava pai e mãe, esta adoentada. Para o mundo, estava seca. Executiva próspera de corretora da bolsa ganhava o que queria. Informações privilegiadas são comuns entre os grandes. Sabem com antecedência qual a empresa vai bem ou mal. E tratam de comprar as ações que vão render.
Ela era assim. Dura, difícil de ser quebrada, escolhia seus namorados e atacava sem a menor cerimônia. Por ser mulher bonita, sempre estava ao lado de quem desejava.
Certa noite, acompanhada de uma recente conquista, foi ao teatro ver uma peça de dança flamenca. Belo espetáculo, o preço pago pela entrada, alto, não foi desperdiçado. Tanto o corpo de dança como o solista de violão, aluno de Paco de Lucia honraram a tradicional dança espanhola. Na saída, pararam num conhecido restaurante e ambos tomaram boas doses de uísque e apreciaram o acompanhamento que a casa oferecia. Tudo indicava que a noite dos escolhidos pela sorte terminaria em prazer. Dormiriam juntos, e depois ninguém é capaz de saber nada. Este tipo de mulher tem esta característica: imprevisível.
O consumo do uísque fez com que seus reflexos diminuíssem, e assim morreu atropelado um ciclista negro, que não teve culpa nenhuma no acidente, segundo o que muitas testemunhas contaram. Fugiu, não prestou socorro e tinha uma certeza. A da impunidade. Ninguém viu, não haveria problemas.
Era o que pensava, mas dois casais, namorando num quiosque próximo, anotaram o número da placa do carro. No inquérito policial, ela provou com nota falsa que se encontrava em outro município, na hora do acidente. Diante da prova, foi encaminhado ao Ministério Público como crime de homicídio culposo, sem autoria certa. Foi arquivado, na justiça.
Não o foi, no entanto, pelo pai do morto, que sabia da história verdadeira. Velho marginal, hoje solto por ter cumprido sua pena, mais cedo, mais tarde, e a autora vai pagar com a vida o ato que cometeu. Naturalmente ela não sabe disso, o que vai facilitar muito os tiros de dois motociclistas.
É o mundo de hoje, a vida que levamos...
Myriam Peres Comentário de Myriam Peres em 1 dezembro 2008 às 13:08

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O Tempo!
...Com o passar do Tempo...

O Tempo, nosso grande amigo...
O Tempo, nosso conselheiro...
O Tempo, nosso travesseiro de refúgios...
O Tempo, nosso maior aliado...
O Tempo, nosso Grande Mestre...
O Tempo, nosso Deus...
O Tempo que cura feridas...
O Tempo que ameniza sofrimentos...
O Tempo que amortece dissabores...
O Tempo que incendeia corações...
O Tempo que anula mágoas...
O Tempo que esclarece mal entendidos...
O Tempo que ensina trajetórias...
O Tempo que rememora saudades...
O Tempo que irradia esperanças...
O Tempo que memoriza ternuras...
O Tempo que equilibra julgamentos...
O Tempo que acalma sobressaltos...
O Tempo que diminui angústias...
O Tempo que recompõe ideais...
O Tempo que estimula corações...
O Tempo que aconselha dúvidas...
O Tempo que anula maledicências...
O Tempo que impõe gratidão...
O Tempo que sacrifica desventuras...
O Tempo que alivia saudades...
O Tempo que abranda irritações...
O Tempo que fatiga desvarios...
O Tempo que incendeia ilusões...
O Tempo que aguarda calmarias...
O Tempo que cala vozerios...
O Tempo que povoa sonhos...
O Tempo que justifica sobressaltos...
O Tempo que indica verdades...
O Tempo que evita desilusões...
O Tempo que compartilha alegrias...
O Tempo que ajuda a esquecer...
O Tempo que estimula à renuncia...
O Tempo que apoia no respeito...
O Tempo que faz continuar...
O Tempo que arrefece vinganças...
O Tempo que nos cala respostas...
O Tempo que avalia incompreensões...
O Tempo que compensa derrotas...
O Tempo que satisfaz fantasias...
O Tempo que enaltece verdades...
O Tempo que expulsa vergonhas...
O Tempo que valoriza emoções...
O Tempo que ampara descrenças...
O Tempo que fortalece ânimos..
O Tempo que esmorece rompantes....
O Tempo que pune no êrro...
O Tempo que absolve no arrependimento...
O Tempo que dá mão no esquecimento...
O Tempo que nos leva à venturas...
O Tempo que nos aproxima de Deus...

Myriam Peres
Jorge Cortás Sader Filho Comentário de Jorge Cortás Sader Filho em 30 novembro 2008 às 12:08
Cachaça de pote

A origem da cachaça é muito incerta. Mas o produto é genuinamente brasileiro.
A mais tradicional explicação é que a bebida teria surgido com a degradação orgânica do melado, feito pelos escravos. O melado era obtido através da fervura do caldo de cana, mexendo sem cessar, enquanto esquentava ao fogo.
Um descuido fez com que o melado, guardado em pote de barro, sofresse a ação do ar e de partículas presentes, oxidando o líquido, como aconteceu com o pão e o vinho.
O processo chamado fermentação, transformou o caldo de cana numa bebida forte, que tomada em grandes quantidades, embriagava. Foi o que bastou para serem construídos alambiques de barro, até hoje existentes em lugares onde a bebida é artesanalmente feita.
A bebida, repudiada pelos portugueses que não queriam ver a queda nas vendas da bagaceira, feita em Portugal e utilizando o bagaço destilado de uvas, tomou o gosto dos brasileiros. Ilegal diante o mando português, acabou sendo livre com a Independência.
Mas sempre foi produzida e consumida. A melhor cachaça produzida é mesmo a que é destilada em alambiques de barro, cujo melado fermentou em potes do mesmo material. Por ser inerte, não contêm sais de cobre, inevitáveis nos alambiques tradicionais comuns, tóxicos. O alambique de barro é raridade; poucos lugares ainda possuem o recipiente não tóxico e que vem de muito longa data.
A fabricação artesanal exige cuidados especiais. Os primeiros produtos destilados, ditos “cachaça de cabeça”, devem ser bebidos apenas com muita moderação pelos apreciadores. Fato idêntico ocorre com o final da destilação, a chamada “cauda da cachaça”. Deve ser descartada, como a cachaça de cabeça, para a obtenção do produto que vai envelhecer, no mínimo, por dois anos em tonéis de carvalho que serviram para amadurecer vinho tinto. É este o processo artesanal, conhecido como perfeito na produção da melhor cachaça.
A indústria, naturalmente, não pode adotar este método, onde a produção é pequena.
Usa grandes alambiques de aço inoxidável, e o caldo de cana é fermentado artificialmente.
Gostou? Beba uma dose, e não repita. Cachaça de pote é coisa séria...
Myriam Peres Comentário de Myriam Peres em 28 novembro 2008 às 10:15


Esperança

"Se brilha, no céu escuro, uma estrela
Desponta, no coração, a esperança."
Myriam Peres




Vejo-me agora com oportunidade de soltar as rédeas dos meus pensamentos, porque escrevendo, me dá alívio e prazer em apresentá-los. Quanto mais eu pensava que sabia tudo, vejo-me agora com a certeza que muito tenho a aprender, muito a tentar aceitar, muita coisa para não me desesperar. A vida, com seus mistérios, suas variações de idéias, seus caminhos, seus descaminhos, permitem que haja uma diversificação de tudo que se possa imaginar
Esperança é um tema muito delicado de se comentar. A própria palavra diz tudo: esperança significa esperar, aquilo que mais desejamos, aquilo que mais precisamos, que mais confiamos que aconteça, esperando o acontecer com fé, com calma e paciência, e isso se realizará a nosso contento e alegria. Esperança é a tábua de salvação dos desesperados, a luz do final do túnel nas dúvidas, o sol nos nossos ideais, a flor no seu desabrochar e maravilhar , a chuva no seu refrescar, a plenitude do nosso pensar, a vida no nosso amar.

Já nascemos com ela. Somos gêmeas no nosso esperar, somos uma só cabeça a pensar, um só coração a se procurar, uma só ilusão a ansiar, uma só amizade a amparar, mas também, uma só tristeza nas horas de nosso penar. Precisamos dela como o ar que respiramos, como o sonho que sonhamos, como o amor que nos completamos, como aquela expectativa que confiamos nesta nossa vida, desde a hora em que aparecemos até a hora da nossa despedida.
Época do Apocalipse, em que tudo ao redor está desmoronando. que ondas gigantes estão nos arrastando, que bestas em tropéis avassaladores nos encurralando, que o medo da destruição se disseminando, o fim do mundo se aproximando e o pavor nos aterrorizando, resta ainda uma esperança, de paz, de acenos de esperas em dias melhores a nos oferecer muito amor, muita emoção entre nós, tranqüilidade em nossos futuros, bonança em nossos viveres, alegria em nossos prazeres, como recompensa das nossas apreensões e das nossas vicissitudes.

Nas tempestades, em mares escuros, revoltos, embarcação à deriva, fazendo água, em que relâmpagos riscam os céus tenebrosamente, no ribombar dos trovões enfurecidos, corremos a nos ajoelhar e pedir a Deus a calmaria necessária, com muita esperança no apaziguamento de temores e perigos reais e imaginários. E acontece, porque depois de um revolução de águas, de incertezas do nosso rumo, vem sempre a calmaria, o nosso alívio, nossa tranqüilidade a nos abraçar, a nos oferecer esperanças de felicidade e tranqüilidade no nosso rumo.

Esperança na cura de uma moléstia que nos aflige, na volta de um amor que foi embora, nas respostas à dúvidas em problemas familiares, na solução de problemas monetários, nas desavenças no lar, nos desejos guardados, nos amores incontidos, nas esperas ansiosas, nos beijos tão desejados, nos abraços a serem abraçados, ei-la que surge límpida, transparente, ofuscante de tanta magia e esplendor, a nos oferecer esperança nas nossas esperanças, nas nossas esperas, nos nossos desejos, nas nossas janelas.

Esperança é a arma contra a incerteza, é o nosso São Jorge com sua lança a matar dragões de sofrimentos, de tristezas e dissabores. Esperança, enfim, é a certeza dos amanhãs que virão nos presentear, com valores de vidas serenos e dignos de serem vividos.

Que nunca percamos a esperança em nada que nos envolve, que ela nos acompanhe sempre nas nossas jornadas, nos nossos andares, nos nossos caminhos e nossos viveres. Cuidado! Quando a saudade quiser aparecer, tenhamos sempre a esperança a nos defender, porque a temos no nosso saber viver. Lembremos disso: " A esperança está sempre nos abandonando, quando a saudade está se aproximando"...



Maria Myriam Freire Peres
Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 2005

Myriam Peres
 

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