Zenir é suspeita de infelicidade, uma falta grave às obrigações destes dias em que se vive com todos os recursos para ser inevitavelmente feliz. A felicidade em turbilhões de aventuras e emoções gazeificadas: viagens, amores meteóricos, realizações pessoais avassaladoras, saciedade das aspirações de posse material de uma infinidade de objetos e muita, muita sofisticação.
Para o extremo gozo da plenitude de todo esse arsenal empolgante, há uma exigência apenas, especialmente no caso de uma mulher: as precauções muito facilitadas para não se ver atrelada aos cuidados com filhos, casa e maridos. Note-se: maridos no plural, pois não é mais permitido manter um relacionamento que já não seja mais "a" fonte de inesgotável paixão e gratificações infalíveis - é simples, troca-se de marido e pronto. Neste último caso, Zenir até que se empenhou, teve mais de um marido e algumas paixões destacáveis (e descartáveis, certamente, como é de bom aviltre que sejam). Mas Zenir foi mãe bem cedo, aos 19 anos já estava com o primogênito nos braços. E de lá prá cá teve ainda mais dois; incorrigível mesmo esta Zenir! E para complicar as coisas, seus filhos todos resolveram proliferar. Ela recebeu assustada a notícia do primeiro neto para depois, como é de praxe, curtir horrores.
De tão prolífica, a Zenir nunca mais viajou. Concluídas as rodadas de aventuras por esse mundão, com mochila e toda a parafernália da geração que viveu a juventude nos anos 70, Zenir passou a ser uma pacata dona de casa. Não exatamente pacata nem dona de casa, uma vez que, mulher independente, sempre manteve a família e trabalhou eqüinamente. O produto do trabalho dispendido nos cuidados com a casa e os filhos. Isso a revoltava quando ainda padecente dos vigorosos impulsos da juventude; repensava sua decisão de ter recusado a pílula, ainda que sua pele fosse apessegada e macia a arrancar gemidos dos amantes. Estes certamente percebiam visceralmente as delícias do contraste epidérmico entre a Zenir, apesar do incômodo de ter as crianças agarradas à sua saia, e as demais que acomodavam os amantes entre braços, seios e pernas, livres de qualquer sombra que reclamasse a divisão de atenção e carícias. E com o acréscimo de estarem mais disponíveis financeiramente para "ajudar" o parceiro e rodopiar em diversões e baladas, viagens e atividades culturais.
E assim o tempo foi passando. Zenir percebia que não tinha muitos amigos nem tanta vida social. Que seus romances se diluíam em noites tórridas sem alguma conseqüência além de alguns prejuízos que os cuidados com os namorados fatalmente lhe impunham. Era preciso se enfeitar às raias das cremosidades cosméticas e, em forma, enfrentar a concorrência desleal de um número cada vez maior de mulheres descoladamente disponíveis. Além daquela síndrome pueril de salvadora dos pobres coitados, aqueles belos homens qual belos Antônios, que exigiam cada vez menos compromisso e mais despesas. Essa estirpe de homens modernosos que assombrariam um patriarca da primeira metade do século XX. Um salto anti-qualitativo aberrante!
O tempo desnudou um anacronismo inconcebível para a imagem que viera cultivando de si mesma ao longo da vida. Foi preciso então se conformar com a crua realidade: constatou-se diferenciada; anacrônica!? Ao menos a própria Janis Joplin se declarava anacrônica a destilar o vozeirão, premido pela entrega a um amor extremado, em canções perdidas de rendição a uma companhia masculina constante.
Zenir, a suspeita, suspeitou ser antiquada. Compreendeu vagamente os cochichos de que era uma matriarca pouco convicta dentro do corpinho de trinta. Percebeu que algumas amigas a olhavam penalizadas de seu sedentarismo incontornável. Ela não ia a Buenos Aires para se aprumar nas casas de alta moda e correr os campos de caça como presa dissimulada dos argentinos tão belos quanto convenientemente atrevidos. Ela não suspirava por Paris e Nova York, na companhia de homens poderosos galantes e afoitos por diversão e artes. Ela simplesmente jazia ali empalada no lar monótono e cercada de crianças barulhentas a multiplicar um caos maçante.
E portanto Zenir ainda foi atingida por revelações todavia mais estarrecedoras. A maturidade lhe descortinou panoramas insólitos. Ela descobriu que um sorriso de suas crianças a levava ao topo do Himalaia, de onde contemplava um céu transluzente. Ela ouvia, os olhos velados de abraços, o burburinho do Sena na Paris transpassada de romances. Ela devaneava no crescimento dos meninos e meninas em percursos de voltas ao mundo e chegadas sempre renovadas. Ela corria riscos arrepiantes próprios dos zelos de amor sempre em acréscimo. E da letargia levantou plena e valente.
Zenir, a suspeita, suspeitou atônita de sua indizível felicidade com sabor de intimidade aparatada em silente discrição. E resolveu que não era possível descrever sua bem-aventurança a nenhuma nem nenhum de seus delatores. Eles não alcançariam a evidência privada de sua felicidade e, caso compreendessem, estariam irremediavelmente alijados de seu júbilo. No caso dela, ainda seria possível remediar: entregar ao Deus dará a sua família e partir em sôfregas excursões mundanas. Ela suspirou apenas e aspirou a sua felicidade única.
Ouvindo Janis solidária a seu anacronismo - "You go all around the world, trying to find something to do with your love, baby" -, ela decolou numa viagem a espaços eternais em riste para fazer do amor uma entrega a cada e toda espera.
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