Fotos Antigas
Ele estava distraído olhando algumas fotos tiradas bem lá do fundo do baú. Estavam velhas, desbotadas, faltando pedaços, algumas grudadas e cheirando a mofo de décadas de esquecimento.
O tempo passando e elas lá quietinhas, como se esperando que alguém as expusesse novamente à luz brilhante do Sol, aquela mesma luz que um dia banhou os aqueles rostos então jovens, alegres, felizes e esperançosos.
Pegou uma grande quantidade delas e espalhou distraidamente em cima da mesa, enquanto imagens conhecidas, mescladas com desconhecidas, sucediam-se perante seus olhos indiferentes que percorriam uma a uma sem saber exatamente por que motivo.
Quantas lembranças perdidas no tempo implacável: Um sorriso aqui, um olhar perdido ali, um abraço protetor acolá, um beijo apaixonado, um sorriso tímido, tudo isso misturado numa pilha empoeirada, grudenta e mal cheirosa.
Quantos sonhos sepultados na indiferença dos que os haviam esquecido. Agora não passavam de meras expressões gravadas num tempo pretérito que quase ninguém mais se recordava.
Era preciso limpar urgentemente as gavetas e lá colocar coisas de uso diário em substituição aquele monte de imagens que não mais tinham lugar em suas prioridades.
Afinal, não passavam de recordações, meras recordações que com o tempo acabariam se tornando um estorvo que só serviria para acumular ainda mais a poeira dos tempos idos.
Então, dando mais uma olhada descuidada antes de se desfazer daquele “lixo imprestável”, deparou-se com um rosto familiar naquele emaranhando de imagens: o seu próprio.
Estranho .. como era novinho, pensou. E aquele que o segurava com tanto carinho, quem seria realmente? Ah! Lembrou-se... era o seu querido tio Júlio! Sim, ele mesmo em seu único e velho surrado terno ... coitado.
Sempre lutara muito na vida e nunca conseguira sucesso em quase nada. Mas era um bom homem a quem um dia amara de paixão. Afinal , não fora com ele que brincara na varanda de sua casa atirando com um revólver de lançar flechas de borracha?
Lembrou-se então com uma certa nostalgia; era tão legal! Na verdade nunca o esquecera de todo. Dentro do seu modo simples de ser conseguira conquitar o coração daquele que agora segurava em suas mãos o registro frio e quase desbotado da sua derradeira imagem.
De repente, sentiu os olhos úmidos s e ficou triste. Triste por não mais poder brincar de atirar flecha com ele na varanda daquela casa que era o seu refúgio. Lugar em que quase todos aqueles rostos esquecidos na gaveta do tempo se fizeram presentes e alegraram durante anos a sua vida.
E agora, esquecidos num canto qualquer, ficavam à espera somente que o tempo apagasse definitivamente suas imagens do papel para que se tornassem, apenas, tênues lembranças na mente de alguns poucos que ainda se importavam e recordavam.
Resolveu então reunir novamente todas as fotos e, desta feita, ordenou-as da melhor maneira que pode dentro de um envelope branco como a neve, contrastando com a cor cinza escuro dos retratos, e os recolocou no mesmo espaço que até então ocupavam.
Havia desistido de usá-lo para coisas “mais importantes”. Naquele momento tudo o mais lhe pareceu supérfluo e dispensável, pois ali naquele monte de imagens desgastadas é que realmente se encontrava tudo aquilo que tivera de mais importante em sua vida:
A presença daqueles que acompanharam os seus primeiros passos, o ensinaram a balbuciar as primeiras palavras, o acalentaram nos seus braços fortes e lhe deram a indispensável proteção para que a eles pudesse sobreviver e transformar-se em um homem respeitável.
E depois de acomodá-las com todo cuidado no campo então doravante reservado à memória de seus ancestrais, sorriu para si mesmo e furtivamente apagou a luz do seu quarto saindo calmamente para não perturbar a memória daqueles que, dali em diante, teriam um lugar especial em suas, agora, imorredouras lembranças.
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Somente hoje fiz meu cadastro no Poetica Digital, mas ainda não inseri nenhum texto. Não conheço o site e não sei se posso divulgar meu livro Lava-almas...
Caso consiga divulgar os seus, me dê a dica.
Abraços
Antonio
seja bem vindo
um abraço
Se sinta em casa
Seja bem vindo